terça-feira, 23 de agosto de 2016

CAPITÃO PEDREIRO #67


domingo, 21 de agosto de 2016

GATO PIRATA #46


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Conheça nossa cozinha #57 - Luz e sombra

 Existem narrativas que são claras e simples de entender, pois trabalham muito bem com a compreensão rápida e quase instantânea das informações.
 Por vezes aqui eu passo a impressão que esse sempre é o caminho ideal a se seguir e não digo que não seja, porque facilitar a vida do leitor também é nossa função. Mas esse caminho se usado para as histórias erradas, ou com o público errado pode levar a um efeito contrário, que em vez de empolgar é o tédio.
 É tipo assistir aquele desenho infantil que o personagem repete a palavra de forma didática e mecânica para fixar na mente da criança e que a gente que é mais velho acha um saco... Porque já sabe isso de cor e salteado há anos.
 Muitos quadrinhos e filmes caem nisso e se tornam histórias tediosas porque são fáceis demais. Óbvio que isso atende a uma demanda de publico, seja os novatos que estão iniciando agora a leitura e interpretação das coisas, ou quem (como eu ou você também) não ta afim de pensar muito e só quer relaxar vendo os robozões tretando e alguns carros explodindo.
 Quem for mais exigente ou estiver procurando uma experiência mais densa que procure coisas mais desafiadoras para a própria compreensão.
 Pensando assim por um tempo eu consumi histórias baseadas somente em coisas subjetivas e meias informações e que deixavam com bastante brecha para imaginar, supor e interagir com a história e chegar as minhas próprias conclusões, o que exigiu mais maturidade e por vezes levou até a frustração imediata e releituras de obras para captar a mensagem.
 Um bom exemplo disso é um filme chamado Embers (Esquecidos), que narra cinco (acho que é isso) histórias de personagens que vivem em um mundo pós apocalíptico em que um vírus faz as pessoas perderem a memória de acordo com graus de infecção (suponho eu) que chega ao nível do infectado esquecer informações cada vez mais recentes como nomes, situações e até o que estava fazendo há 5 minutos atrás. Tanto que um casal que é uma das histórias, dorme e acorda sem saber quem é o outro, e aparentam estar fazendo isso há um bom tempo já e no decorrer do dia eles se apaixonam de novo pra no dia seguinte esquecer até os próprios nomes. A questão é que o filme não explica nada disso, só mostra. Não tem o narrador em primeira pessoa ou o onisciente (que age como Deus) contando e explicando tudo. A história só decorre e a gente vai junto acompanhando o dia a dia dos personagens até o ponto que a história é contada e é essa sacada de não contar nada e deixar a gente ficar perdido junto com os personagens que deixa a história interessante, porque eu me senti tão perdido quanto os personagens.
 Gosto de comparar isso com luz e sombra no desenho.
 Existem histórias que são claras como o dia, as coisas são bastante visíveis e “claras”. Daí podemos partir disso e ir adentrando a penumbra para encontrar imagens/histórias de meia até pouca luz, em que o lance está nas nuances e na nossa capacidade de completar as formas e meias informações para chegar a entendimento todo da coisa.
 Por exemplo, uma pessoa rua sob iluminação do meio dia está totalmente visível. É fácil saber quem ela é, pois a gente bate o olho e consegue extrair uma série de informações sobre a mesma. Já a mesma pessoa em uma rua sob a penumbra da noite pode ser qualquer um, porque a quantidade de informações visuais sobre ela é drasticamente reduzida.
 Levando isso para a parte escrita, quando se tem o domínio da narrativa podemos deixar de lado algumas informações na história para que o leitor suponha por ele mesmo.
 Não precisa deixar tudo as claras e ficar explicando e esfregando na cara da audiência o tempo inteiro.
 Claro que como tudo isso implica em um risco. Porque dependendo do nível de complexidade da história ela exige mais de uma leitura para ser completamente compreendida.
 Assim como alguns quadros de arte exigem tempo de observação, leituras exigem tempo de reflexão para assimilarmos e digerirmos todo o conteúdo.
 Como agora a informação anda um tanto descartável e está cada vez mais comum as pessoas exigirem reações instantâneas. Isso em comida, entretenimento e logicamente nos quadrinhos parece que não tem muito espaço para esse tipo de conteúdo.
 - Aí porque o leitor é burro!
 - Porque o leitor é preguiçoso!
  Uma criança tem que ser guiada pela mão quando anda pela rua, ou quando lê um quadrinho como é com Turma da Mônica. Agora tenho visto (e não me excluo) adultos com o mesmo comportamento infantil.
 - Não gostei.
 - Porque?
 - Essa história é muito difícil.
 Não que isso seja culpa das pessoas, isso é uma questão cultural geral. Afinal estamos há anos sendo ensinados a pensar assim.
 É o lanchinho rápido, o prazer instantâneo e por aí vai.
 Penso se vale a pena nós autores modularmos totalmente nosso trabalho para atender essa demanda de leitores mais “preguiçosos” que estão sendo treinados ou se é o negócio manter a resistência e procurar quem superou isso e esteja disposto á pensar um pouco mais para compreender a mensagem.
 Novamente caímos na questão de gosto.
 Não tem certo nem errado.
 Só escolhas.
 Até misturar os dois inclusive.
 Tanto que não raro agora são as histórias de nicho. Que atendem uma demanda pequena de fãs, assim como card games e jogos de tabuleiros que exigem mais imaginação, interação presencial e decorar uma tonelada de regras indo na contramão dos jogos on line em que já ta tudo um pouco mais acessível e mastigadinho.
 Não precisa ser o chato cult o tempo todo ou a história danoninho (porque mais fácil que comer danoninho é foda) o tempo todo.
 Tem leitor/fã pra tudo.
 Particularmente penso que ler uma história é se deixar enganar por algum tempo e deixar com que o outro brinque com as nossas expectativas/emoções (até onde a gente permitir) de forma controlada. Por isso quantos mais artifícios nós dermos na mão do autor, mais ele pode nos enganar e assim mais nós nos divertiremos quando descobrimos a verdade, resolvermos o mistério, chegarmos a conclusão, encontrarmos o tesouro...
 É só saber equilibrar a coisa para ficar nem muito vago, nem muito óbvio, é saber variar entre os extremos, porque constância gera tédio e tédio gera desinteresse.
 E a ultima coisa que um autor quer é que sua história não seja interessante.